Não podemos deixar o amor ser privatizado

Foto de Gustavo Barreto, registro de 20 de junho de 2013 no Rio deJaneiro, durante um dos maiores protestos já ocorridos na cidade em toda a sua história, com uma reação policial proporcionalmenteviolenta.

Foto de Gustavo Barreto, registro de 20 de junho de 2013 no Rio de Janeiro, durante um dos maiores protestos já ocorridos na cidade emtoda a sua história, com uma reação policial proporcionalmente violenta.




“(…) O fato de a produção biopolítica ser ao mesmo tempo econômica e política, de criar diretamente relações sociais e de colocar as bases do poder constituinte ajuda-nos a entender que a democracia da multidão de que tratamos aqui pouco se assemelha à “democracia direta” como era tradicionalmente entendida, na qual cada um de nós usaria do tempo de nossas vidas e de nosso trabalho para votar constantemente sobre cada decisão política. Basta lembrar a observação irônica de Oscar Wilde de que o problema do socialismo é que ocuparia noites demais.

A produção biopolítica apresenta a possibilidade de fazermos o trabalho político de criar e manter as relações sociais de maneira colaborativa nas mesmas redes comunicativas e cooperativas da produção social, e não em intermináveis reuniões noturnas. A produção das relações sociais, afinal, não só tem um valor econômico como também é obra da política.

Neste sentido, a produção econômica e a produção política coincidiram, e as redes colaborativas de produção sugeririam um arcabouço para uma nova estrutura institucional de sociedade. Essa democracia na qual todos nós criamos e mantemos a sociedade de maneira colaborativa através de nossa produção biopolítica é a que chamamos de “absoluta” (…).”

Os autores articulam sua perspectiva a partir de bases teóricas que,agora percebemos, está tomando forma em diferentes contexto ssociais, como na Turquia, no Brasil, nos EUA e no Egito – em cada país com consequências distintas. Segue o trecho:

“(…) A definição da democracia da multidão e de seu poder constituinte também exige um ponto de vista político capaz de reunir em determinado tempo e espaço o poder comum da multidão e sua capacidade decisória. Isso não quer dizer que aquilo que reconhecemos até aqui dos pontos de vista ontológico e sociológico seja secundário ou irrelevante.

Um dos mais graves erros teóricos políticos é considerar o poder constituinte como um ato político puro separado do ser social existente, como mera criatividade irracional, o ponto obscuro de alguma expressão violenta do poder. (…) Ele [o poder constituinte] é uma decisão que emana do processo ontológico e social do processo produtivo; é uma forma institucional que desenvolve um conteúdo comum; uma manifestação de força que defende a progressão histórica da emancipação e da libertação; é, em suma, um ato de amor.

As pessoas hoje em dia parecem incapazes de entender o amor como um conceito político, mas é precisamente de um conceito de amor que precisamos para apreender o poder constituinte da multidão. O moderno conceito de amor é quase exclusivamente limitado ao casal burguês e ao espaço claustrofóbico da família nuclear.

O amor tornou-se uma questão estritamente privada. Precisamos de uma concepção mais generosa e irrestrita do amor. Precisamos recuperara concepção pública e política de amor comum às tradições pré-modernas. (…) Precisamos recuperar hoje esse sentido material e político do amor, um amor forte como a morte.

Isto não significa que não possamos amar nossa mulher, nossa mãe e nosso filho. Significa apenas que nosso amor não termina aí, que o amor serve de base para nossos projetos políticos em comum e para a construção de uma nova sociedade. Sem esse amor, não somos nada.”

14 de Julio de 2013 a la(s) 20:06

Título, foto e trechos de Michael Hardt e Antonio Negri destacados por Gustavo Barreto.

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